sábado, 1 de março de 2014

Singularidades de Quilombo: Um estudo do texto de Edson Carneiro



TEXTO DE ESTUDO 1 – SINGULARIDADES DOS QUILOMBOS, por Edson Carneiro

Profª Ludmila Pena Fuzzi

O recurso mais utilizado pelos negros escravos, no Brasil, para escapar dos cativeiros foi sem dúvida o da fuga para o mato, de que resultaram os quilombos, ajuntamentos de escravos fugidos.
CARNEIRO (2011) nos coloca que infelizmente não dispomos de documentos fidedignos, minuciosos e circunstanciados a respeito de muitos dos quilombos que chegaram a existir no país; os nomes de vários chefes de quilombos estão completamente perdidos; e os antigos cronistas limitaram-se a exaltar as fadigas da tropa e a contar, sem detalhes, o desbarato final dos quilombolas. Na região do Vale do Paraíba Paulista a dificuldade em se ter material documental ainda maior. Um dos pontos do projeto é exatamente coletar informações nos Arquivos da região, criando gráficos dos resultados encontrados.
Em verdade, se desprezarmos o episódio em favor do quadro geral, observaremos que, embora ocorridos em diversos pontos de território nacional, e em épocas diferentes, os quilombos apresentam uma fisionomia comum, tanto nos motivos que impeliram os negros para o recesso das matas como na organização social e econômica resultante da vida em liberdade.
O movimento de fuga era, em si mesmo, uma negação da sociedade oficial, que oprimia os negros escravos, eliminando a sua língua, a sua religião, os seus estilos de vida. O quilombo, por sua vez, era uma reafirmação da cultura africana e do estilo de vida africanos. O tipo de organização social criado pelos quilombolas estava tão próximo do tipo de organização então dominante nos Estados africanos que, ainda que não houvesse outras razões, se pode dizer, com certa dose de segurança, que os negros por ele responsáveis eram em grande parte recém-vindos da África, e não negros crioulos, nascidos e criados no Brasil. Os quilombos, desde modo, foram para usar a expressão agora corrente em etnologia, um fenômeno contra aculturativo, de rebeldia contra os padrões de vida impostos pela sociedade oficial e de restauração dos valores antigos.
Duas coisas se notam, à primeira vista, no estudo dos quilombos, todos esses ajuntamentos de escravos tiveram, como causa imediata, uma situação de angústia econômica local, de que resultava certo afrouxamento na disciplina da escravidão, e todos se verificaram os períodos de maior intensidade do tráfico de negros, variando a sua localização de acordo com as flutuações de interesse nacional pela exploração desta ou daquela região econômica.
Com efeito, o simples ”rigor do cativeiro”, que sempre se fez sentir pesadamente sobre o escravo, não basta para justificar a sua fuga, a princípio em pequenos grupos, depois em massa, para as matas vizinhas. Nem chega para explicar a segurança com que os negros já aquilombados visitavam frequentemente as vilas de onde tinham fugido, a fim de comerciar, de comprar artigos manufaturados e de induzir outros escravos a seguir o seu exemplo, tomando o caminho da selva. O quilombo foi essencialmente um movimento coletivo, de massa. Poder-se-ia explicar, apenas pelo “rigor do cativeiro”, o grande movimento de fuga de escravos das fazendas paulistas, nos últimos anos da escravidão?
O quilombo, que não passava de um pequeno habitáculo de negros fugidos, cresceu extraordinariamente, pois com os conflitos, com as crises econômicas e outros problemas na estrutura do século XVIII e XIX, a vigilância dos senhores se tornou dificultada, oportunizando as fugas. As problemáticas aumentaram o número de Quilombos pelo. Esses tiveram, pois, um momento determinado o desejo de fuga era certamente geral, mas o estímulo à fuga vinha do relaxamento da vigilância dos senhores, causado, este, pela decadência econômica. E, por outro lado, os quilombos se produziram nas regiões de maior concentração de escravos, de preferência durante as épocas de maior intensidade de tráfico negreiro.
Quanto aos negros crioulos, utilizaram outras maneiras de fugir ao “rigor do cativeiro”, passaram à luta aberta, como na Balaiada, justificaram os senhores, como nas fazendas fluminenses, ou buscaram a liberdade nas cidades.
Os quilombolas viviam e paz, numa espécie de fraternidade racial. Havia, nos quilombos, uma população heterogênea, de que participavam em maioria os negros, mas que contava também mulatos e índios. As pesquisas demonstram que os negros chegaram a estabelecer comércio regular com os brancos das vilas próximas, trocando produtos agrícolas por artigos manufaturados.
Os quilombos situavem-se geralmente em zonas férteis, próprias para o cultivo de muitas espécies vegetais e ricas em animais de caça e pesca. A utilização da terra, ao que tudo indica, tinha limites definidos, podendo-se afirmar que, embora a propriedade fosse comum a regra era a pequena propriedade em torno dos vários mocambos ou, como escreveu Duvitiliano Ramos, a “posse útil” da terra. Era o mesmo sistema da África. Entre os nagôs como entre os bantos, pelo que ensinam Dary Forde e J.W.Page, a terra pertence aos habitantes da aldeia e só temporariamente o indivíduo detém a posse da terra que cultivou. Os quilombolas, individualmente, tinham apenas as extensão de terra que podiam, na realidade, cultivar.

A agricultura beneficiava-se, por um lado, da fertilidade da natureza e, por outro, do sistema de divisão de terras. Era universal, nos quilombos, a criação de galinhas, algumas vezes acompanhada da criação de porcos e outros animais domésticos, tendo também a prática de caça e pesca, para complementação da dieta quilombola.
Os trabalhadores, aparentemente, dividiam-se por duas categorias principais, lavradores e artesãos. Os escravos procedentes das fazendas certamente se enquadravam no primeiro grupo e teriam sido responsáveis diretos pela policultura. Os artesãos notáveis eram: ferreiros. Os documentos antigos não indicam exatamente a atividade econômica a que se entregavam as mulheres, mas provavelmente fabricavam roupas com cascas de árvores e peles de animais e produziam cestos, abanos e trançados em geral. Elas também ajudavam os oleiros na fabricação de potes e vasilhas de todos os tipos encontrados nos quilombos.
As vilas vizinhas, entregues à monocultura ou sujeitas à precariedade da lavoura de mantimentos, socorriam-se dessa atividade polimorfa dos negros aquilombados. Os frutos da terra, os animais de caça e pesca, a cerâmica e a cestaria dos negros trocavam-se por ferramentas industriais e agrícolas, roupas, armas de fogo e outros produtos de manufatura. Esse comércio direto, reciprocamente benéfico, realizava-se habitualmente em paz. Somente às vezes os quilombolas recorriam às armas contra os moradores brancos, quando estes os roubavam além dos limites da tolerância ou quando avançavam demais com as suas terras sobre a área do quilombo.
A simples existência dos quilombos constituía “um mau exemplo” para os escravos das vizinhanças. E, em geral, estava tão relaxada a vigilância dos senhores que estes não tinham maneira de impedir a fuga dos seus escravos, senão tentando a destruição, pelas armas, dos quilombos. Os negros já aquilombados eram incansáveis no recrutamento de parentes, amigos e conhecidos.
A organização política se baseava na formação de poder de tribos africanas. A população miúda aos poucos deu nascimento a uma oligarquia, constituída pelos chefes de mocambo, a quem cabia, como na África, a atribuição de dispor das terras comuns. A pequena duração dos quilombos eram em geral não permitiu o processo de institucionalização chegasse ao seu termo lógico. Cada mocambo tinha um líder, que eram o ancião da comunidade e por fim o Quilombo um Zumbi (rei), seguido de seus guerreiros e trabalhadores.
Por fim, podemos considerar que o Quilombo foi um acontecimento singular na vida nacional, seja qual for o ângulo por que o encaremos. Como forma de luta contra a escravidão, como estabelecimento humano, como organização social, como reafirmação dos valores das culturas africanas, sob todos estes aspectos o quilombo revela-se como um fato novo, único, peculiar, uma síntese dialética. Movimento contra o estilo de vida que os brancos lhe queriam impor, o quilombo mantinha a sua independência à custa das lavouras que os ex-escravos haviam aprendido com os seus senhores e a defendia, quando necessário, com as armas de fogo dos brancos e os arcos e flechas dos índios. E, embora em geral contra a sociedade que oprimira os seus componentes, o quilombo aceitava muito dessa sociedade e foi, sem dúvida, um passo importante para a nacionalização da massa escrava.
Do ponto de vista aqui considerado, se, por um lado os negros tiveram de se adaptar às novas condições ambientes, por outro lado o quilombo constituiu, certamente, uma lição de aproveitamento da terra, tanto pela pequena propriedade como pela policultura, ambas desconhecidas da sociedade oficial. Não foi esta, entretanto, a sua única utilidade. O movimento de fuga deve ter contribuído para abrandar o “rigor do cativeiro”, mas o quilombo principalmente serviu aos desbravamento das florestas além da zona de penetração dos brancos e à descoberta de novas fontes de riqueza.


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