domingo, 8 de dezembro de 2013

A sociedade brasileira contemporânea e seus dilemas: identidade e alteridade

A sociedade brasileira contemporânea e seus dilemas: identidade e alteridade

            Profª Ludmila Pena Fuzzi

            Refletir sobre as referências identitárias remete imediatamente ao conflito étnico e a questão das diferenças que o tema da diversidade cultural impõe. Assim, embora a marca do humano, ou melhor, da cultura humana, seja exatamente a diferença dos gêneros, dos sexos, das religiões, das etnias, das identidades e dos direitos, paradoxalmente temos que lutar politicamente para que essas diferenças sejam respeitadas no cotidiano e incluídas no debate político e acadêmico.

            Os discursos das grandes civilizações historicamente têm se pautado pela postura etnocêntrica, ou seja, nós e os outros. Em nome de uma “civilização” e de uma “cultura superior,” o outro, ou seja, aquele que é diferente tem sido qualificado e tratado como bárbaro, fraco, inferior, incapaz, impotente, desprezível etc. Foi precisamente para compreender e explicar esse paradoxo da cultura humana que no século XIX, por ocasião da globalização moderna decorrente do processo de colonização europeu iniciado por volta do século XV, que surgiu a Antropologia, ciência social cujo objeto de estudo é exatamente a cultura humana e o seu inseparável, porque intrínseco a ela, etnocentrismo. No percurso histórico do seu desenvolvimento enquanto ciência ao longo do século XIX, a antropologia tomou como objeto de estudo a relação de conhecimento entre o “Eu” e o “Outro”, calcada no princípio do respeito à alteridade, e construiu uma distinção em relação às outras ciências sociais, qual seja, um olhar fundado na perspectiva teórica do relativismo e na metodologia do trabalho de campo no estudo da cultura.

            Tomando dados empíricos, a despeito das mobilizações e declarações mundiais contra todo tipo de discriminação, verificamos que atitudes racistas e intolerantes em relação à diversidade não mudaram muito. No Brasil são 50 milhões de pessoas, ou seja, 29%, vivendo abaixo da linha da indigência. O que esses dados podem revelar em relação à questão política da diversidade étnico-cultural e das identidades? Tudo. Essa população mundial excluída é composta majoritariamente por pobres de etnias diversas que sofrem vários tipos de discriminação e preconceitos de ordem econômica, política, social, cultural, de gênero etc. Portanto, isso remete diretamente à questão da cidadania, dos direitos e da necessidade de políticas públicas de gestão desses conflitos na sociedade contemporânea.

            No mundo atual, as saídas históricas para estes conflitos foram perspectivas e políticas segregacionistas (África - apartheid), assimilacionistas (Brasil) e multiculturalistas (Canadá, Austrália e Suécia). Historicamente, das expansões imperiais à era colonial, o desenho até meados do século XX era o modelo das culturas hegemônicas versus culturas não hegemônicas, que levaram a dois modelos: a segregação e a assimilação.

            Vemos que, às realidades nacionais em que os conflitos étnicos e culturais já existem estruturalmente, acrescentam-se os movimentos maciços de populações que se deslocam no planeta. Assim, o impacto das migrações acirra os conflitos étnico-culturais gerando diásporas modernas (Hall, 2005) que exigem inclusão e discussão na pauta da política mundial. É importante destacar as conseqüências políticas drásticas da mundialização do capital, ligadas diretamente à construção das referências identitárias, a partir do conflito relacionado à diversidade étnico-racial. É preciso denunciar e refletir sobre a exclusão de grande contingente humano da participação democrática do direito de se expressar na própria língua, da educação, saúde, habitação, emprego e representação política.

            O multiculturalismo, via de regra, é apresentado como saída política correta e adequada para esses problemas. Entretanto, percebemos alguns problemas de ordem político-ideológica nesse discurso. Vejamos, multiculturalismo remete a duas questões de imediato, qual sejam, o fato de que a diversidade existe e de que é uma questão política. Assim, podemos abordar o conceito em termos de:

1- A abordagem demográfica (descritiva) - apresenta os vários segmentos étnicos;

2- A abordagem programática (política) - programas e iniciativas políticas para gerir a diversidade étnico-cultural;

3- A abordagem ideológica (normativa) - visa garantir o respeito mútuo baseado no princípio de que a riqueza do mundo reside no diálogo entre as diversidades.

4- A abordagem ideológica (crítica) - com a qual concordamos, aponta para o fato de que reconhecer as diferenças pela diferença, é extremamente perigoso por dois motivos: não permite a percepção histórica da origem da diferença e desloca a questão do conflito para o relativismo cultural.

            Partindo dessa premissa, percebemos como indício importante para a compreensão da sociedade brasileira, a identificação da violência simbólica e as diversas representações no imaginário social dos diversos tipos de discriminação: sexual, de gênero, racial, etc. Inclusive e principalmente as vividas e também as praticadas por todos nós. Partimos do pressuposto de que a atitude de identificar, discutir e reconhecer a contradição e o conflito constitutivo do humano aproxima afetivamente o pesquisador do seu objeto de estudo e possibilita o trabalho daquilo que nos afeta e pode permitir o reconhecimento do preconceito e discriminação, como primeiro passo para uma possível crítica e transformação, embora isso não seja garantia de mudança de atitude.

            No caso do Brasil, não podemos abordar o tema das referências identitárias sem discutir o racismo em relação aos negros. Não só a partir da perspectiva histórica, mas também no plano afetivo ou do imaginário, e nesse sentido, a Teoria da Psicanálise é extremamente importante, principalmente a concepção lacaniana dos registros no plano do real (que é diferente de realidade), do simbólico e do imaginário (Lacan, 1998). Cabe ressaltar que esses registros se expressam em planos de análise que só se separam para efeito didático. Nesta perspectiva, o racismo no Brasil pode ser enfocado a partir da dialética desses registros no plano de análise. No registro do real, impera a miscigenação étnica visível empiricamente. No registro da realidade, que é uma construção sócio-cultural elaborada a partir das fantasias que estruturam o real, podemos identificar a prevalência da negação do racismo e o desconforto disfarçado em relação à mestiçagem étnica entre negros, índios e brancos, na formação da sociedade brasileira.

            Dessa forma, no Brasil, a mistura aparece na cor, entretanto no registro do imaginário que ordena os sentimentos e estrutura o real, o que comanda é a justaposição, a hierarquia que reforça o racismo, ou seja, lá na fantasia, o que comanda os desejos em relação ao sentimento racista, é a justaposição. Não há mistura, os preconceitos estão presentes e arraigados. No plano do simbólico, lugar da representação das fantasias, a justaposição hierárquica e autoritária aparece camuflada na aparência de mistura nas diversas formas de expressão estética e artística da realidade brasileira, ou seja, na literatura, na poesia, no cinema, na música, na pintura, na escultura e nas diversas mídias.

            Diante do exposto, podemos inferir que, se a teoria da circularidade de Bakthin (1987) e Ginzbrug (1987), destaca o processo pelo qual as idéias de culturas distintas circulam e se interpenetram de forma dialética, é preciso destacar também que no Brasil, por exemplo, esse processo de influência múltipla entre a cultura hegemônica e não hegemônica, provoca como efeito a justaposição hierárquica e autoritária das idéias/sentimentos no plano do imaginário social (Berlinck, 2000).

            A identidade é uma construção social e cultural, portanto histórica. E nesse sentido, é ingenuidade ou cinismo sustentar qualquer tipo de neutralidade político afetiva. Daí nossa crítica à postura alicerçada numa neutralidade científica ou fundada no relativismo cultural, que ainda tem pautado a atitude dos antropólogos contemporâneos, marcada pela ausência de uma intervenção ética ou política face aos conflitos advindos do contato com a diversidade cultural, em nome de uma postura de tudo relativizar.

Referências Bibliográficas

BAKHTIN, M. A cultura popular na Idade Média. São Paulo: Hicitec, 1987.

BERLINCK, Manoel Tosta. Psicopatologia fundamental. São Paulo: Escuta, 2002.

DA MATTA, Roberto. Carnavais, Malandros e Heróis: para uma sociologia do Dilema Brasileiro, 6ª Edição, Rocco, Rio de Janeiro, 1997.

___________________. Relativizando: uma introdução à antropologia social.
Petrópolis: Vozes, 1981.

GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. São Paulo: Cia das Letras, 1989.

HALL, Stuart. Identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

LACAN, Jaques. O Seminário Livro 11 - os quatro conceitos fundamentais da

psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

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